Compondo uma Melodia

Uma melodia consiste em um conjunto de sons dispostos em ordem sucessiva (concepção horizontal da música). Existem vários métodos de composição musical e em vários casos o uso desses métodos depende bastante da vivência ou experiência musical daquele que se propõe a compor. Desde já recomendo que você ouça muita música e se ainda não toca algum instrumento musical comece a estudar, isso te dará mais possibilidades de vivências.
Compor uma melodia não é tarefa difícil, você precisa apenas exercitar sua criatividade e “brincar” com as notas musicais. Porém é importante seguir alguns passos para alcançar o seu objetivo.
Alguns elementos podem interferir na composição da melodia e você deverá considerar alguns aspectos importantes antes de começar sua tarefa:
a)Que tipo de escala vai utilizar: modo maior ou modo menor?
b)Como será organizada a estrutura rítmica da melodia? Que células rítmicas serão utilizadas?
c)Qual será a métrica da melodia? binária, ternária, quaternária?
d)Qual será a velocidade (andamento) adotada na execução da melodia? Lembre-se de que andamentos lentos possuem de 40 a 72 batidas por minuto, andamentos médios têm de 72 a 120 batidas por minuto e andamentos rápidos possuem de 120 a 208 batidas por minuto.

Outra questão de relevância é considerar o tipo de sensação que você quer transmitir com a nova melodia. Se a ideia é compor uma melodia alegre, você deverá utilizar, preferencialmente, tonalidades maiores e andamento rápido. Por outro lado, se o objetivo é compor uma melodia que transmita tristeza ou reflexão, utilize tonalidades menores e tempo mais lento, além de linhas melódicas descendentes. Em nosso hinário temos alguns exemplos de hinos com tais caraterísticas: o hino “Glória, aleluia, Cristo vem”, por exemplo, retrata uma tonalidade maior, com andamento rápido. Trata-se de uma melodia que transmite alegria, esperança. O hino “momentos preciosos”, por sua vez, foi composto em uma tonalidade menor e andamento mais lento, sendo propício para um momento de reflexão.
Lembre-se que a melodia vocal deve transmitir “melodiosidade”, o que implica:
a) Utilizar notas relativamente longas;
b) Preferir movimento ondulatório por graus em vez de saltos;
c) Evitar intervalos aumentados e diminutos;
d) Aderir à tonalidade e às suas regiões mais vizinhas;
e) Empregar os intervalos naturais de uma tonalidade;
f) Tomar cuidado na utilização da dissonância.
g) Evitar o uso de notas rápidas, staccatos, e com fortes acentuações, pois são de difícil entonação.
h) Evitar cromatismo e notas estranhas à tonalidade, pois oferecem dificuldades;
i) Evitar registros muito agudos (produzem clímax) ou muito graves;
j) O registro médio apesar de não oferecer muitas gradações dinâmicas e vôos expressivos, é o mais conveniente.
A seguir abordaremos alguns conceitos que poderão nos garantir ferramentas para criar pequenas melodias com uma fundamentação, trazendo segurança naquilo que estamos fazendo, a arte de compor.
Caso você seja novo nesse campo da música, não tenha medo, o importante
é que você dê o “ponta pé’’ inicial, então vamos lá!
*Fraseologia: estuda principalmente a construção melódica.
1. Inciso: a menor unidade (célula) de uma obra musical, também chamado de motivo.
2. Semi-frase: combinação de diferentes incisos.
3. Frase: resulta da junção de duas semi-frases, podendo ter cadências (finalizações) conclusivas ou suspensivas.
3.1 conclusiva: transmite sensação de fim.
3.2 suspensiva: transmite sensação de continuidade.
4. Período: combinação de duas ou mais frases.
4.1 Frase antecedente: a primeira frase do período (se compararmos a um diálogo esta seria a interrogativa).
4.2 Frase consequente: a segunda frase do período (já esta seria a resposta).
Observe como a melodia do hino “Tuas obras te coroam”, escrita por Beethoven contém elementos fraseológicos: a melodia está escrita em Sol Maior. A primeira nota é a terça da escala (nota si). Podemos observar as semifrases, as frases e os períodos. As frases foram construídas em graus conjuntos, ou seja, não há saltos entre as notas. A primeira frase é suspensiva e a segunda frase conclusiva e obedece a imitações rítmicas.
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Depois de estabelecermos estes conceitos básicos vamos à aplicação:

Usaremos apenas as 5 primeiras notas da escala de dó maior, tente tocá-las ao piano:

Agora tente cantar de forma ascendente e descendente:

Agora que estamos familiarizados com as 5 notas observe como realizaremos de forma rápida nosso processo de criação de uma melodia simples.

É importante que haja simetria, métrica e coerência entre os incisos, semi-frases. Então vamos definir que cada compasso será um inciso, dois compassos uma semi-frase e quatro compassos uma frase, como na figura abaixo:
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Usaremos duas figuras rítmicas, com duração de 1 segundo para indicar movimentação e com duração de 2 segundos para indicar pontuação.

Nosso primeiro inciso terá apenas No segundo faremos uma pontuação para respiração, portanto deverá terminar com .

Vamos adotar algumas regras para delimitarmos nosso campo de trabalho:
1. Usaremos predominantemente graus conjuntos (notas consecutivas).
2. Saltos apenas de terça (ex: dó-mi/mi-dó, ré-fá/fá-ré, mi-sol/sol-mi)
3. Ponto de partida será sempre a nota dó.
4. Frase conclusiva terminará com a nota dó.
5. Frase suspensiva poderá terminar com as notas ré, sol ou si.

Semi-frase:
Note que juntando os dois incisos formamos uma semifrase

Primeiro inciso:
Note que começamos com a nota dó, fizemos um salto ascendente de terça e descemos em graus conjuntos;
Note que concluimos o segundo inciso com figura de duração de 2 segundos.

Segundo inciso:
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Criaremos mais dois compassos imitando o ritmo dos dois primeiros:
Veja que a última nota é ré, isso tornará a nossa primeira frase (antecedente ) suspensiva, pois nos proporciona sensação de continuidade.

Usando o que já aprendemos até aqui criaremos agora a frase que serve de resposta à primeira, lembrando que para ser conclusiva é necessário terminar na nota dó.

Frase consequente conclusiva:

Agora nossa melodia está pronta:

Frase antecedente suspensiva: 21

Chegou a sua vez de criar, lembre-se de cada conceito e do “passo a passo”, divirta-se:
Ressalta-se que nem todas as composições musicais obedecem estritamente às regras aqui estabelecidas e que elas servem apenas como um ponto de partida. Esse é apenas o primeiro passo na arte de compor. Desejamos muito sucesso a todos os envolvidos nesse precioso trabalho.
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Referências
SHOENBERG, Arnold. Fundamentos da composição musical. São Paulo: Edusp, 1996.
MED, Bohumil. Teoria da Música. Brasília, DF: Musimed, 1996.
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